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quarta-feira, 30 de abril de 2014

Sobre o Leite e seus efeitos (IL x APLV)

O leite é um alimento muito comum e amplamente utilizado no nosso dia-a-dia, mas para algumas pessoas ele pode ser um pesadelo devido a reações causadas pela sua ingestão, que podem ser decorrentes de: Intolerância à Lactose ou Alergia à Proteína do Leite. Embora ambas tenham em comum o alimento que as causa, os mecanismos são diferentes e os cuidados também são específicos para cada caso. Por isso, acho legal entender um pouco mais sobre a IL e a APLV. Vou focar mais na IL porque é o que eu tenho e por isso acabo me interessando mais, mas vou dar uma “pincelada” na alergia a proteína do leite para explicar as diferenças.

O texto ficou um pouco grande, mas acho que vale a pena ler até o final. Para quem chegar lá tem uma curiosidade (in)útil.

– Antes de qualquer coisa, quero deixar claro que não sou médica, nutricionista, nem sou de qualquer profissão da área de saúde. Todas as informações contidas nessa postagem (e em outras desse blog) se baseiam nas minhas experiências de intolerante a lactose, pesquisas na internet e em livros, conversas com profissionais e conversas com outras pessoas que possuem intolerâncias alimentares. De forma alguma, essas informações substituem o acompanhamento ou orientação médica. Além disso, eventuais correções ou novas informações são bem-vindas –


Entendendo a IL

O que é a lactose?
A lactose é o “açúcar” do leite. É um carboidrato formado pela junção de dois carboidratos menores: glicose e galactose.

E o que é a intolerância à lactose?
A IL acontece quando o organismo não produz ou produz em quantidade insuficiente a enzima lactase, que é a responsável por digerir a lactose, quebrando-a em glicose e galactose.



Fonte da imagem: 
http://www.wiley.com/college/boyer/0470003790/cutting_edge/lactose_intolerance/lactose_intolerance.htm


A glicose e a galactose, que são carboidratos simples, são absorvidas para a corrente sanguínea e daí em diante desempenham suas funções no organismo. A lactose, por outro lado, por ser um carboidrato mais complexo, não é absorvida em sua forma natural e permanece no intestino se não for “quebrada” através da ação da lactase. Com isso:

- O intestino torna-se um ambiente hipertônico, o que faz com que água seja absorvida para dentro dele através da osmose. O excesso de água acaba por causar a diarreia.

- A lactose é fermentada por bactérias presentes na flora intestinal, e nesse processo são gerados gases e ácidos orgânicos.  O excesso de gases produz a sensação de inchaço, flatulência, dores abdominais, entre outros sintomas de má digestão.

E por que o organismo não produz lactase?
Bom, pelo que tenho pesquisado, a incapacidade do organismo em produzir lactase pode ser resultante de doenças intestinais que tenham danificado a mucosa do intestino e com isso, as células responsáveis pela produção da lactase  (chamado de IL secundária), ou pode ocorrer uma diminuição natural da produção de lactase ao longo da vida, determinada por fatores genéticos (chamado IL primária).

Na secundária, normalmente a intolerância é temporária e a produção de lactase é reestabelecida após a recuperação dessas células. Dependendo da gravidade do caso, entretanto, pode ser que o dano seja permanente.

Na primária, o quadro provavelmente é permanente, mas é comum que pequenas quantidades de lactose sejam toleradas. Essa quantidade varia de pessoa para pessoa e mesmo para cada indivíduo pode variar ao longo do tempo, pois fatores como o estado emocional, qualidade de vida e alimentação influenciam a quantidade de lactase produzida.

Quais são os principais sintomas?
Alguns desconfortos causados pela IL são:

- Diarreia (ou às vezes constipação)
- Dor abdominal;
- Inchaço abdominal;
- Gases / Flatulência;

E o que pode ser feito para melhorar a IL?
A forma mais simples que aprendi: parar de consumir lactose. A IL não vai sumir, mas o desconforto vai. Nesse ponto, é importante cada um testar seus limites, pois enquanto algumas pessoas, mesmo com IL, ainda podem consumir pequenas quantidades de leite e derivados sem apresentar desconforto, outras apresentam reações fortíssimas mesmo com a ingestão de quantidades mínimas.

Utilizando meu caso como exemplo: ao descobrir minha IL eu cortei da minha alimentação basicamente o leite em si, sorvetes cremosos, leite condensado e creme de leite, mas conseguia comer tranquilamente queijos, manteiga e bolos ou pães produzidos com leite (sem excessos, claro). Recentemente, percebi que minha tolerância diminuiu e esses itens já não são mais tão inofensivos pra mim. Será que eu vou poder voltar a consumir pequenas quantidades de lactose sem problemas? Pode ser, pois no momento estou em uma fase crítica, inclusive investigando outros possíveis problemas além da IL, mas isso eu só descobrirei com o tempo.

Além disso, há a opção da ingestão da enzima lactase (encontrada atualmente em pó ou em comprimidos, mas depois falo dela com mais detalhes) junto com o consumo de produtos que contenham lactose para que ela atue na digestão, como nossa própria lactase atuaria, se fosse produzida pelo organismo em quantidade suficiente. Embora haja uma medida que indica o quanto de lactose pode ser consumida depois de cada dose, o que eu aprendi na prática é que  também nesse caso é importante cada um testar e conhecer seu limite para garantir que não irá passar mal, pois uma pessoa que produz pouca lactase precisará suplementar menos do que outra que não produz nenhuma lactase, por exemplo. Atualmente, a alguns alimentos lácteos, é adicionada a enzima durante o processo produtivo, de forma que eles já chegam ao mercado sem lactose ou com lactose reduzida.

O uso de probióticos (alimentos que contém micro-organismos vivos em sua composição) também beneficia os intolerantes a lactose, pois além de promover o equilíbrio da flora intestinal e consequente integridade das células do intestino, as bactérias benéficas ao organismo, contidas nos probióticos usam a lactose (dentre outras coisas) em seus processos naturais, consumindo parte desse carboidrato que permaneceria no intestino.

Mas é sempre muito importante que qualquer diagnóstico e consequente tratamento seja orientado e acompanhado por um profissional qualificado para tal. 



Alergia à Proteína do Leite de Vaca (APLV)

A alergia a proteína do leite de vaca é uma reação do sistema imunológico que identifica a proteína do leite como uma substância estranha e produz anticorpos e/ou células inflamatórias para combatê-la. Em decorrência dessa reação, a pessoa pode apresentar sintomas gastrointestinais (cólicas, diarreia, vomito, dificuldade para engolir, entre outros), de pele (coceira nos olhos e na pele, urticária, inchaço de olhos e lábios, etc), respiratórios (coriza, obstrução nasal, tosse, respiração difícil) ou gerais (baixo ganho de peso, anafilaxia, que em casos graves pode culminar com o fechamento da garganta).

No caso da alergia, às vezes a reação ocorre especificamente com a proteína do leite de vaca e a pessoa pode não ter reações com outros leites animais (como o de cabra ou outro), entretanto, como as proteínas não são tão diferentes assim, é comum que qualquer leite animal desencadeie a reação e por isso é muito importante orientação e acompanhamento médico.

Para quem tiver interesse em saber mais sobre a APLV, essa cartilha é muito boa. Foi de onde tirei a maioria das informações sobre APLV e é bem mais completa do que minha breve descrição: 
http://www.alergiaaoleitedevaca.com.br/_download/folheto_aplv_escolas.pdf


IL x APLV

Os sintomas às vezes são confundidos, pois os distúrbios gastrointestinais podem ocorrer em ambos casos, entretanto os motivos pelos quais ocorrem são diferentes e enquanto a IL se restringe a esses sintomas, a APLV pode ter vários outros, como citados anteriormente.

A regra básica para os cuidados é que no caso da APLV, é necessário que o leite de vaca seja completamente excluído da dieta pois até pequenos traços podem desencadear a reação alérgica. Já na IL, produtos elaborados com leite, mas com zero ou baixa lactose (dependendo do nível de intolerância) podem ser consumidos e normalmente também não é necessário se preocupar com a contaminação cruzada, ou traços de leite, pois isso não causa desconforto (exceto em casos muito graves).

Quem está buscando mais informações sobre a contaminação cruzada com leite, pode também consultar a cartilha que mencionei acima, que contém várias orientações e dicas para evitar que isso aconteça.

Outra informação interessante é que a APLV é mais frequente em crianças e rara em adultos, pois é comum sumir conforme as crianças crescem e a IL é muito mais comum em adultos e idosos do que em crianças. Estima-se que cerca de 70% da população adulta seja intolerante a lactose em algum nível.

Bom, espero que esse texto ajude esclarecer algumas dúvidas. Mas antes de finalizar, um momento de descontração com uma curiosidade bombástica extraída do blog Gastroenterologia Pediátrica e Nutrição 
(http://gastropedinutri.blogspot.com.br/2014/02/intolerancia-lactose-historia-genetica.html): 

“A Foca, Zalphus californianos, constitui uma exceção entre os mamíferos, posto que seu leite não possui Lactose e nenhum outro carboidrato, e a glicose encontrada no sangue dos filhotes durante o período da amamentação é derivada primariamente do glicerol da gordura do leite da foca.”

Agora que acabei de descobrir isso, por favor, “alguém me amassa, porque tô passada”!

Pesquisando um pouco mais sobre essa curiosidade que me intrigou bastante, achei esse site 
(http://www.wiley.com/college/boyer/0470003790/cutting_edge/lactose_intolerance/lactose_intolerance.htm)
que diz que além das focas, outros mamíferos marinhos como as morsas e leões marinhos também produzem leite sem lactose, devido à falta de uma substância necessária para síntese da lactose quando o leite está sendo produzido. 

O mesmo site ainda relata que em 1933, um bebê morsa que estava sendo transportado do Alasca para a Califórnia foi alimentado com leite de vaca e apresentou diarreia grave, pois esses animais não produzem lactase, já que não consomem lactose. 
**Tadinho do bebê morsa**


Manhêêêêêêê, tô com dor de barriga!

Então amigos, vemos que não estamos sós na natureza. Focas, morsas e leões marinhos aparentemente nos acompanham na IL!

Se é mesmo assim, eu não sei dizer. 
Aqui http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/2364254 aparece um pequeno percentual de lactose no leite de uma determinada espécie de foca, mas controvérsias a parte, achei bem interessante. Alguém sabe mais sobre esse assunto?

E aliás, onde compra leite de foca, de morsa ou de leão marinho? Se eu não descobrir, terei que fazer como o Mussum? =P




Abraço a todos!

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