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sábado, 27 de setembro de 2014

Mudança de hábitos, reflexões e o filme “Sentidos do Amor”


Durante essa semana estava reparando nas pessoas e refletindo sobre como nós, seres humanos, somos passíveis de sermos moldados pela nossa situação. E isso não é de forma alguma ruim, pelo contrário, acho lindo ver a flexibilidade e a capacidade de adaptação que nós temos.

De onde saiu essa reflexão? Nessa semana comecei seguir uma dieta para melhorar minha ingestão de nutrientes e também tentar descobrir os alimentos que mais irritam o meu já facilmente irritável intestino (*). Nesses dias, vez ou outra eu me peguei comentando, super animada, com as pessoas a minha volta sobre a minha nova dieta e trocando ideias sobre o meu atual estado e minha alimentação com uma tranquilidade que eu jamais poderia imaginar que teria um dia.

Há quase 10 meses, quando levei minha primeira marmita para o escritório porque eu estava passando mal com simplesmente T-U-D-O e mal conseguia almoçar uma batatinha pequena cozida só na água e sal e uns quatro cubinhos de peito de frango também só com sal, eu tinha vontade de me esconder em um buraco para almoçar: esperava não ter ninguém perto do microondas para esquentar o almoço e comia tudo rapidinho torcendo para ninguém ver. Eu tinha vergonha de levar minha marmita, tinha vergonha de explicar porque eu não comia no restaurante da empresa como todo mundo, e principalmente de responder a temida pergunta: “Mas você se sente mal como?” Ah, nessa hora como eu queria que minhas reações fossem dores de cabeça, coceiras ou até ficar verde fluorescente! Não porque sejam sintomas menos incômodos, mas com certeza seria menos embaraçoso responder. Como não é o meu caso, eu me limitava a dizer alguma coisa como “é, minha barriga fica meio estranha” e ainda assim provavelmente com tanta vergonha que as pessoas só deviam escutar algo como “hum hum hum meio estranha ”.


Agora minha marmita e eu já evoluímos: o potinho de comida aumentou (às vezes são até 2!), levo sobremesa, sento na mesa da copa com tudo arrumadinho, esquento o almoço no microondas mesmo com um monte de gente perto e como com a maior calma do mundo. Mais legal ainda é que quando me veem almoçando, as pessoas já me perguntam o que eu levei de gostoso naquele dia ou comentam que o cheiro está bom. Já tenho até alguns companheiros de almoço que por algum motivo também acabaram optando por levar a própria comida (trabalho em uma obra, então o restaurante não é lá grandes coisas, né).

Mas essa história toda é só para chegar à parte que realmente importa: o fato de que algo completamente assustador e estranho há 10 meses, hoje é o normal pra mim e também para todos os colegas que já se acostumaram com a minha “lancheira” laranja e minha presença na copa do escritório de segunda a sexta em algum horário entre o meio-dia e uma da tarde.

Lancheira laranja e almoço arrumadinho

Pensando nisso, chego à conclusão de que somos muito mais fortes e ao mesmo tempo mais maleáveis do que acreditamos ser e acho que temos muito mais opções para ser feliz do que nossa pequena mente pode imaginar. A gente sempre dá um jeito de se adaptar, por mais que a princípio pareça que esse dia nunca vai chegar.

Para mim, há 10 meses, parecia que seria o fim do mundo carregar uma marmita para todo canto. Hoje não só não me importo nem um pouco -- abro meu pacotinho de comida no escritório, no aeroporto ou mesmo dentro do avião como se tivesse abrindo a bolsa para pegar uma caneta – como até já descobri pequenos prazeres associados a esse hábito: adoro quando janto alguma comida deliciosa e já penso que no dia seguinte vou poder comê-la de novo no almoço, gosto de saber que nunca ficarei sem almoçar mesmo quando aquela reunião se estender além do horário de funcionamento do restaurante e acho graça ao ver a cara do sujeito sentado ao meu lado no avião quando ele, morrendo de fome, ganha um amendoinzinho e eu tiro meu super sanduba ou aquela maçã linda de dentro da bolsa (um prazer meio malvado talvez, mas acontece).

Mais importante ainda é que com isso, passei a me importar menos em seguir os padrões de forma geral. Descobri e comecei a gostar de muitos alimentos novos e de certa forma, a necessidade de mudança nos hábitos alimentares me fez enxergar um mundo inteiro de novidades que eu achei fantásticas! Diz o ditado que “a necessidade faz o sapo pular”, só que nesse caso acho o sapinho aqui pulou tão alto que ele foi obrigado a aprender a voar para não se esborrachar no chão na volta. A expansão de horizonte foi muito além da alimentação e eu simplesmente passei a ver coisas que não via antes e a pensar de forma diferente.

Penso que a fonte da nossa alegria até pode mudar, mas sabendo usar as ferramentas que temos, com certeza ela nunca faltará. Sabe aquela pessoa que ouve você dizer que é intolerante a lactose e diz “nossa, eu iria morrer se não pudesse consumir leite”? Não quero ser grossa nem nada, mas acho que então a vida deve ter sido muito mais generosa comigo do que com essa pessoa porque eu não posso consumir leite e até hoje não morri! Deve ser é muito triste e limitante achar que a vida depende de uma fatia de queijo.

Brincadeiras à parte, essas pequenas privações me fizeram perceber que o mundo e a vida são grandes demais para a gente achar que perder um pedacinho ou outro vai fazer tanta falta assim. Há muito mais para aproveitar do que daremos conta em nossos anos por esse mundo e por um motivo ou outro todos nós sairemos daqui sem ter vivido todas as experiências oferecidas. A única diferença é que eu já sei de antemão qual é um dos 0,00000000000000000000000000000000001% do mundo que eu não vou (mais) “aproveitar”.


Só para complementar com uma dica, nessa minha “viagem filosófica” me lembrei de um filme que assisti há algum tempo que mexeu muito comigo, chamado “Sentidos do Amor” (Perfect Sense, no título original). Em um breve resumo, ele conta a história de um chef de cozinha e de uma epidemiologista enquanto uma doença que faz as pessoas perderem seus sentidos sensoriais se alastra pelo mundo. O filme é ligeiramente bizarro, o que me agrada profundamente, e palavrões e corpos são usados sem restrições, o que eu acho dispensável, mas independente de qualquer outra coisa, é incrivelmente fascinante ao mostrar como somos guiados por aquilo que temos disponível. Como um dos personagens principais é um chef de cozinha, a mudança de percepção é muitas vezes mostrada através da relação das pessoas com a comida, o que torna quase impossível não relacionar algumas situações com as mudanças pelas quais passamos ao descobrir restrições alimentares.


=)

(*)Para quem não sabe, desde o finalzinho do ano passado que venho investigando o que me faz mal além da lactose, pois depois de muito tempo convivendo bem com a IL, voltei a ter muitas crises, mesmo sem consumir nadinha de leite e derivados.

2 comentários:

  1. Beatriz há 1 ano e meio descobri que tinha intolerância a lactose e desde então percebi como adquiri hábitos mais saudáveis e penso porque não era assim antes? Além de diminuir a ingestão de produtos ( é que a minha não é tão agressiva, é acumulativa), passei a consumir frutas, verduras e produtos naturais mais frequentemente e concordo plenamente contigo sobre se adaptar a novas situações.

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    1. Que bacana, Aline! A gente se adapta a tudo, né? E muitas vezes essa adaptação nos leva até a um lugar melhor do que onde estávamos antes. Legal saber que você também percebeu essa mudança.
      Abraço! =)

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